Os Flanelinhas já Chegaram Nos Estados Unidos

Quando no exterior: goze desta conveniência


 

O

primeiro contato (the sighting) aconteceu numa noite de São Francisco num bairro meio estranho perto do centro onde se encontram vários clubs noturnos. Convidam-me uns amigos para a night e fui, coisa que não fazia ha algum tempo. Procurava então um lugar chamado CatClub uma dessas casas noturnas que tem uma gaiola em algum canto e as gatas dançam loucamente lá dentro. Fui convidado pela minha turma de mestrado e não foi crise da meia idade não, foi mais como um cara de meia idade no meio da crise. Circulava eu pelos arredores do clube procurando vaga quando ouvi um berro de um transeunte, não dava para ver estava escuro, mas no canto do olho vi um sujeito apontando para uma vaga do outro lado da rua. Qualquer americano normal não teria a sapiência mas devido a uma longa relação cultural com a coisa senti logo do que se tratava, reagi automaticamente como um animal guiado pelo instinto, me beneficiei da dica da vaga.

Estaciono rapidamente e vejo no retrovisor um cara mal ajambrado caminhado em direção ao meu carro com algo balançando no braço e penso: será possível!? Abro a porta meio desconfiado e ele me diz “Sir, I will take care of your car” Neste momento histórico ficou confirmada a existência de Flanelinhas na America. O fenômeno pode ser local mas é possível que isso já esteja se espalhado em todos os grandes centros. Espantosamente todos os traços são idênticos aos nossos flanelinhas. Levava consigo a tradicional…flanela, ficou na área a minha espera, e até pensou em me cobrar antecipadamente o que é uma característica que já demonstra o nível “advanced”. Notei que a minha reação a ele foi a mesma que tinha no Brasil, murmurei algumas palavras que mais ou menos seriam: “vamo vê”, ou “sei não”, “so vou parar por 5 min.”, “na volta tá?”sempre na esperança de que ele não esteja lá quando eu voltar.

Saio dali um pouco atordoado diante da dura descoberta. Uma triste constatação da crise economica na America? Foi desagradavel e ao mesmo tempo nostálgico. Entro no club, animação total. Era o 80’s night, que tinha toda quinta. Para a maioria uma mera curiosidade de um passado remoto, para mim uma perfeita volta ao passado pois todos ali tinham a minha mesma idade, mas só que 20 anos atras. Nada mudou, na verdade minto. Houve uma grande evolução na área da comunicação, quer dizer todo mundo fica mandando torpedos um pro outro. Isso me chamou a atenção pois não existia a 20 anos atras. Fico mandando torpedos também para não parecer velho ou antiquado, logo fui aceito por todos, como se fosse uma formiga de outro formigueiro que foi finalmente acolhida.

No centro do salão um lindo bar rodeado por lindas jovens que consumiam desabandonadamente na certeza de que a intoxicação alcoólica era algo que estava para acontecer eu um futuro remoto e não no dia seguinte. Nada de cervejinha, so rolava alto teor etílico ali. Eu com a cara e a coragem pedi uma Coca-Cola, descobri depois que é muito mais interessante ficar sóbrio e descontraido em meio a bêbados do que bêbado e descontraido em meio a sóbrios. Lá pelas tantas uma das minhas colegas quiz me dizer algo, eu por uma razão qualquer tinha minha atenção sempre voltada para a tal da gaiola onde dentro haviam varias loucas dançando desvairadamente; havia algo surpreendente naquilo tudo.

Já um pouco enebriado pelo ambiente noto que me cutucava alguém querendo dizer algo, viro-me para o lado e vislumbro a minha amiga. Sou obrigado a fazer leitura labial para entende-la. Dizia ela que tinha sido abordada por um cara na rua que a ameaçou dizendo algo que não tinha entendido bem, algo relacionado ao seu carro. Eu imediatamente tranquilizei-a: “no, don’t worry they are just little flannels” expliquei que eles tomam conta do seu carro e depois você dá uma gorjeta. Ela olhou para mim como se eu enlouquecera. Me assegurou que nunca faria isso. Eu lhe disse que esse fenômeno era incontrolável, desde o momento que surgem nunca mais vão embora e que era melhor ir se acustumando. Ela não me deu crédito ou não entendeu bem e pensou estar bêbado, ou brincando. Ficou por isso mesmo. Obviamente era uma novata no Flanelismo e também a da pobreza urbana.

Na saída do clube, vamos ver se esse cara é bom. Vi o sujeito por ali mas ele não me viu, apliquei então o golpe do transeunte: fingir estar só passando na rua, espero ele se afastar e entro no carro rapidamente sem ser visto. Foi moleza. Saio sem pagar. É, estes flanelas aqui tem ainda muito o que aprender, como poderia saber ele da minha vasta experiência na flanelagem. Por enquanto ainda é moleza, mas não se sabe por quanto tempo. Se houver intercambio cultural com o Brasil estamos ferrados.

Alguns acham que os flanelinhas são vagabundos ou aproveitadores. Outros acham que apenas tentam criar um nicho de trabalho como qualquer outro, e ha aqueles que defendem seus direitos afirmando serem vitimas da desigualdade. A miséria e a necessidade não tem língua ou nacionalidade. No final todos procuram uma só solução, escapar do infinito buraco negro da falta de emprego e a pobreza que aprisionam as pessoas como em gaiolas sociais de onde é difícil fugir. Algumas destas praticas temporárias tornam-se cronicas. Enquanto houver desigualdade social todos sofrem. Não acho que eles (os flanelinhas) estão se divertindo dentro de suas gaiolas assim como as gatas faziam na noite. Porém agradeço a aquele individuo da noite a oportunidade que me deu de pensar e escrever algo.

Image credit: flickr.com

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Marcos Taquechel

Marcos works as an RN in sub acute care and with the elderly. He believes you can heal yourself. By providing good useful information, others can use and transform their life. He keep searching for natural healing that produce results. Please leave a comment. Thank you

4 comments… add one
  • Margarida Sep 6, 2015, 8:12 am

    Cara, você escreve de um jeito tão interessante, onde mais posso achar os seus artigos?

    • Marcos Taquechel Sep 6, 2015, 10:54 am

      Obrigado Margarida! Meus artigos estão todos aí no site mas em Ingles. Tenho outros em português que vou publicar em breve. Deixe o seu email no botão “subscribe” para manter contato.

  • Marcos Sep 5, 2015, 8:22 pm

    Shame on you ! What a lack of consideration ! If the guy was there working, it was because he needed the money and you trying to be “smart”, skipped without paying ! I’m sorry but you acted like a jerk ! ?????

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